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Ser negro = empoderamento constante


A cada dia que passa eu descubro cada vez mais o que é e como é ser negro no Brasil (pra não fazer um geralzão e falar no mundo). Pra quem nunca viu meu vídeo sobre o dia em que eu me descobri preto, houve um momento na minha vida onde eu não aceitava minha cor, minha origem e minha história. Houve uma época onde eu sentia ódio por ter nascido negro. E após me descobrir, pesquisar, lutar, resistir e existir eu achei que isso bastava para ser negro. Porém a vida me surpreende com novidades cada dia mais. 

Há uns meses atrás eu comecei a trabalhar em um bairro mega nobre de São Paulo. E quando eu digo mega nobre, eu digo o seguinte: é um bairro onde existem poucos prédios e casas residenciais e as que existem, são habitadas por pessoas (geralmente brancas) de classe A, pra não dizer mega elite paulistana. E o restante dos prédios e casas são comerciais. Nesses prédios comerciais a maioria da galera que trabalha é branco, pois são empresas como bancos e outros negócios onde se você entra na sala e encontra um negro, certeza que é a pessoa da limpeza. Essa é a realidade desse bairro o qual eu trabalho. Então, vocês já podem entender que quando eu saio na rua e caminho pelo bairro e as pessoas não me veem uniformizado como doméstico, gari, faxineiro ou então como "moleque que faz malabarismo ou vende bala no farol", elas se surpreendem. 

E eu digo isso afirmando, porque já fazem meses que eu encontro as mesmas pessoas e eles se surpreendem todas as vezes que eu passo por eles indo trabalhar. Eles me olham como se eu estivesse ali para servir eles e não andar na terra deles como quem pertence ali. Porque é assim que eles olham os negros ali. Ficam surpresos quando veem um de terno e gravata. Ficam surpresos quando veem um que não está vestido de acordo com a profissão que eles consideram inferiores a deles. Mas isso é só um gancho para o real assunto deste texto. A questão é que precisa ter muito conhecimento de si e amor próprio para "sobreviver" à esses olhares e aos julgamentos constantes! Quando coloquei tranças, andar por ali era basicamente ser uma celebridade andando em meio do povo, só que sem receber o mesmo amor. Se eu fosse ligar para todas as vezes que ouvi risadas, cochichos e percebi olhares de reprovação, eu com certeza hoje não andaria de cabeça em pé por lugar nenhum.

Ser negro, na minha vivência, é se empoderar constantemente. Quantas vezes eu não fui para baladas e bares, em busca daquela pessoa para beijar e ter uma relação, porém por conta do meu cabelo afro ou das minhas tranças eu não me senti tão confiante? Eu as vezes me culpo por isso, o que é um problema visto que não sou o problema. Mas é sempre assim. Eu sempre preciso me lembrar quem eu sou e que sou bonito desse jeito. Colocar as tranças é incrível mas ser rejeitado em lugares públicos, não só pelo "não" depois do "vamos ficar?" mas também pelos olhares, é péssimo! Abala minha auto estima e mexe com a minha consciência, onde eu começo a querer retirar aquilo que amo apenas para a sociedade voltar a gostar de mim... Até porque, segundo eles mesmos, fico mais bonito com cachos definidos do que com tranças penduradas parecendo sujas. 

Esses dias apareci de turbante no bairro em que trabalho. Meu Deus. Que choque pra sociedade. O que deveria ser tão comum quanto uma mulher de rabo de cavalo ou um homem com gel no cabelo (vice-versa), é considerado algo novo, algo diferente, algo exótico, algo estranho. O que era pra não atrair olhares por ser comum pra mim, acaba virando o zoológico deles. Eu fico me perguntando se eu, que tenho uma boa cabeça levo tudo isso assim, imagina para um negro que ainda não se aceita, não resiste? A vontade de se esconder, de tirar o turbante, de alisar o cabelo, de se misturar com a raça considerada superior é enorme quando não nos amamos e quando não nos empoderamos. É isso o que é ser negro numa sociedade onde o racismo é enraizado, onde somos exóticos, estranhos, diferentes. 

A luta é diária. Não acaba quando um negro é eleito presidente. Não acaba quando um negro morre por ser negro. Não acaba quando um negro ganha um prêmio importante. Não acaba quando somos destacados na mídia e empoderados por aqueles que nos amam online e nos criticam e odeiam offline. A luta é diária e não só do lado de fora, mas dentro de nós. Ao nos conhecer, conhecer nossas origens, nossa história, nossa luta e viver a favor disso, viver a favor de nos amar e amar nossos irmãos e irmãs. Resistindo. Se amando. Porque eles podem tentar tirar tudo da gente mas jamais gritarão vitória por tirar nosso amor próprio.

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1 comentários:

  1. Que texto lindo e importante! Me lembrei de quando entrei na faculdade, acho que foi quando percebi o quanto eu era diferente mesmo da galera. Era muito difícil e as vezes eu faltava para não ter que conviver com eles, mas como você mesmo disse, eles nunca vão tirar nosso amor próprio.

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